Project
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Inserida num contexto urbano distinto, a Cleft House afirma-se como uma resposta arquitectónica depurada ao seu entorno, dialogando com a densidade e a escala da cidade e, em simultâneo, respondendo de forma profunda ao clima local. O projecto utiliza a luz, os vazios e a materialidade como elementos fundacionais, moldando tanto a experiência espacial como a relação da casa com o ambiente. Os vazios não são meramente estéticos: funcionam como espaços dinâmicos que mediam entre interior e exterior, entre privacidade e abertura, desempenhando também um papel crucial na regulação ambiental.
A composição volumétrica do edifício é marcada por uma pureza escultórica, com um exterior branco que contrasta fortemente com a vedação perimetral em aço escuro. A implantação estratégica e a dimensão dos vãos estabelecem uma hierarquia de privacidade, ajustada à função de cada espaço. A fachada a norte é simples e geometricamente limpa — um gesto deliberado que reflecte a ligação da casa ao tecido urbano envolvente. Em contraste, a fachada a poente, orientada para um parque adjacente, assume um carácter mais introspectivo, com aberturas controladas que equilibram transparência e resguardo e regulam a exposição solar. Esta dicotomia formal reforça a relação adaptativa da arquitectura com o lugar, respondendo de forma assertiva às necessidades ambientais e programáticas.
O piso térreo é dedicado ao núcleo social da casa, onde uma ampla zona de estar se integra com o exterior através de grandes vãos envidraçados e de um generoso pórtico voltado a norte. Este elemento estrutural funciona como transição, oferecendo sombra e protecção, enquanto liga o interior à paisagem envolvente. A piscina, localizada dentro deste enquadramento, beneficia da cobertura do pórtico, assegurando controlo solar e promovendo um diálogo entre interior e exterior, comprimindo e expandindo a experiência espacial. Ao longo do dia, luz e sombra interagem, proporcionando uma vivência multissensorial que se transforma com o movimento do sol.
Para além de proteger a casa do calor e de privilegiar a privacidade, o projecto integra também espaços mais expostos ao clima. Um grande terraço a poente, sombreado para os meses de inverno, permite um uso confortável do exterior durante as estações mais amenas do Kuwait. Este espaço prolonga a casa no ambiente, oferecendo um cenário ideal para os meses mais frescos. A partir daqui, uma escada conduz a um terraço na cobertura, sobre o pórtico, de onde se revelam vistas amplas sobre a cidade. Este espaço elevado funciona como um refúgio tranquilo, criando uma ligação panorâmica com a paisagem urbana.
A cave acolhe espaços funcionais e culturais. A diwaniya, desenhada com entrada independente, mantém autonomia dentro do programa, garantindo que a sua função cultural permanece distinta do restante uso doméstico. Abaixo, a garagem, as áreas de serviço e os espaços técnicos integram-se de forma contínua no desenho, assegurando a infraestrutura necessária sem comprometer a fluidez e a eficiência espacial.
Os pisos superiores destinam-se às áreas privadas da casa, com quartos, salas de família e terraços privados cuidadosamente posicionados para optimizar vistas, mantendo a privacidade. A disposição de vãos e terraços cria uma relação subtil com a paisagem urbana envolvente, proporcionando momentos de recolhimento e tranquilidade. Os volumes superiores fragmentam-se e recuam em pontos estratégicos, permitindo que a luz penetre mais profundamente em áreas sombreadas, como o pórtico e a zona da piscina, intensificando a experiência através de contrastes delicados entre luz e sombra.
No coração da casa, um vazio central estreito funciona simultaneamente como conector espacial e regulador ambiental. Este gesto amplifica a sensação de intimidade, ao mesmo tempo que promove luz natural e ventilação ao longo da habitação. O vazio articula os diferentes níveis e espaços, criando um fluxo coeso e reforçando a relação entre interior e exterior. Paredes envidraçadas e transições cuidadosamente desenhadas diluem os limites entre dentro e fora, permitindo que o espaço respire e responda de forma fluida às variações de luz e às condições ambientais. Assim, a arquitectura adapta-se ao ritmo do quotidiano, evoluindo continuamente com o seu contexto.
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Localização
Abdullah Al-Salem, Kuwait
Ano
2023
Área de Construção
1085 m²
Estado
Concluído

























Equipa
Carla Barroso, Elvino Domingos, Telmo Rodrigues
António Brigas, Alba Duarte, Duarte Correia, Diogo Monteiro, Fátima Mendes, João Costa, Luís Esteves, Mariana Neves, Pedro Batista, Pedro Miranda, Paulo Monteiro, Ricardo Balhana, Sofia Teixeira, Tânia Oliveira, Tatiana Pavliuc, Tiago Farinha, Vânia Reis, Lionel Estriga
Instalações Técnicas: Hassan Javed, Mohamed Hassan, João Catrapona, Sérgio Sousa, Pedro Vaz
Design de Interiores: Leonor Barata Feyo
Luísa Calvo, Cesar Maria, Carolina Grave
Design Gráfico: Aquilino Sotero, Diogo Monteiro, Fábio Dimas, Mariana Neves
Consultores
Estruturas: R5 Engineers
Design de Iluminação: Light Design Portugal
Fotografia
Fernando Guerra | FG+SG